Vencedor da edição 2015: Eduardo Rosal

Minibiografia

Eduardo Rosal (Rio de Janeiro, 1986) é escritor, ensaísta, tradutor e artista plástico. Mestre e Doutor em Teoria Literária pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com período de doutorado sanduíche no Centre Transdisciplinaire d’Épistémologie de la Littérature et des Arts Vivants, da Université Nice Sophia Antipolis, na França, sob orientação de Marco Lucchesi (UFRJ/ABL), Patrick Quillier (UNS) e Filomena Juncker (UNS). Crescido em Bangu e Realengo, subúrbio carioca, já morou em Tabatinga-AM, em Coxim-MS e em Nice (França). Atualmente vive em Rio das Ostras-RJ. O sol vinha descalço é seu livro de estreia.

Sinopse

O poema de Eduardo Rosal, aqui em O sol vinha descalço,  fez a opção da verticalidade. Com isso eliminou ou reduziu a distância que separa poetar e pensar, e gerou novos espaços nos quais os objetos podem tornar-se sujeitos, como que inesperadamente. [...] A densidade existencial, os passos ou as braçadas, o uso oportuno do “anzol das palavras” traz para perto de nós os passos arriscados de homens e coisas. A percepção aguda, mobilizadora, e nem por isso menos silenciosa, registra gestos partidos, afirmações deliberadamente inconclusas, marcas de pés descalços. [...] O poeta é o motor e o guardião zeloso desse universo inegociável, dessa aposta interminável. Por isto o poeta, este poeta, veio para ficar, com “os três olhos do tempo” bem abertos.

Eduardo Portella, Academia Brasileira de Letras

3 poemas de O sol vinha descalço

HUMANO

 

Tenho tido tão pouco ódio

que chego a ter medo

de não estar sendo

o mais humano que posso.

XIII

 

Toda amorosidade do amor

é desumana? Ignora

a tortura das carícias?

 

O amor desanda caprichos?

Desmente e esconde?

Amor ― ternura política

 

dos tolos? Jogo tecido

em transparente esfinge?

Véu precário? Liberdade?

MÃE

                          Para Nêdja Oliveira

          “As mães são as mais altas coisas

          que os filhos criam, porque se colocam

          na combustão dos filhos...”

                                               (Herberto Helder)

Quantas vezes, mãe,

o cheiro de alho

em suas mãos.

 

O silêncio circundava

as panelas no fogo.

Continuo olhando.

 

Você temperava os dias.

E eu aprendia o sabor

da palavra amor.

 

O cheiro não te esqueceu.

Mora nos meus dedos.

Vivo só.

 

Aquém do que vivemos

sou mãe de mim

e de tantos, em versos.

 

Eis aqui, mãe,

nosso segundo

parto.