Vencedora da edição 2017: Laís Araruna de Aquino

Minibiografia

Laís Araruna de Aquino nasceu em 1988, no Recife, onde vive. É formada em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco e Procuradora do Município do Recife. Juventude (Ed. Reformatório), ganhador do Prêmio Maraã de Poesia 2017, é seu livro de estreia.

Sinopse

Ainda que múltipla, a matéria dos poemas de Juventude se reúnem em torno do eu, situado em um mundo desencantado, de ontologias dissolutas, mas em que ainda se anseia por algum tipo de unidade ou união – providas, talvez e momentaneamente, pela síntese poética de “um presente que não importasse de retornar eternamente a si mesmo”. Sem fatalismo, no entanto. Estes poemas convidam a passear os olhos, “sob a luz dourada de verão”, pelos “morrinhos do horizonte”, com lirismo e uma dose do “espanto primevo e metafísico”.

3 poemas de Juventude

TEIA

 

não há seguro contra o estar no mundo

nem tua casa te previne contra o assalto da existência

as janelas não impedem o vento e o cortejo de passos

de te trazerem signos do nada

o silêncio acusa que estás no centro de coisas

que não oferecem consolo porque apenas remetem a teu exílio

o expediente de levantar da poltrona e abrir a porta

da geladeira mede o intervalo de tempo gasto

e não sabes de que te serviria mais

teu olhar interroga paredes e detém-se numa lamparina

em vão um inseto debate-se contra o vidro

não há senão esta só e única realidade

 

à beira do Capiberibe ou do Nevá

 

REITERAÇÕES SOBRE UM TEMA

 

o vento no canavial

as bandeirinhas de Volpi

os leões que Hokusai desenhou todos os dias

por 219 dias até morrer

 

a forma não se atinge nunca

na reiteração das coisas no tempo

as coisas – elas mesmas

são outras e tu

outro és

 

e o café as camisas brancas o assoalho da casa,

o qual pisaste e tornarás a pisar,

numa configuração nunca idêntica,

porque a madeira desbota e teus cabelos vão a cinza

 

viver – eis a fissura

é estar inacabado até o fim

 

REGISTRO

 

Esta noite chove muito

No leito do rio Capibaribe

 

Como choveu uma tarde

Em Lima há um século atrás

 

E nas calçadas da Rua Duvivier

Há pouco quase

 

Outro dia choverá assim

E não estaremos mais aqui

 

Vallejo, Gullar e eu.